sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Escrúpulos tardios...

Minha mãe, anos antes de sua morte, tinha uma estranha mania de falar que estava cansada.

Mas não se referia a um cansaço de quem dava exaustivas horas de aulas de inglês no Instituto de Educação e depois corria para o antigo Ineru, Instituto de Endemias Rurais do Estado de Minas, para fazer longas e técnicas traduções de relatórios de experimentos científicos, que iam e vinham do estrangeiro, em colaborações de pesquisas, relativas a doenças rurais.

Não era o simples cansaço de quem chegava em casa, depois da lida externa e se preocupava com os andamentos da alimentação, limpeza e manutenção da casa.

Tampouco o simples cansaço de quem ainda trazia para casa, altas pilhas de provas para correção e notas.

Nesse ponto, até parecia que ela tinha um certo prazer de ver os frutos de seus ensinamentos em plena evolução.

Era uma professora muito exigente e temida por suas alunas. Mas todas a reconheciam como muito justa.
Varias foram as homenagens recebidas de ex-alunas, algumas já com nome notório no cenário de personalidades da cidade, ou de Minas e até do Brasil.

Era uma mulher lutadora!...

Vencia seus desafios com galhardia e mostrava uma disposição rara. Deixou-me muitos exemplos desta maneira de enfrentar as adversidades.


Separada pelo desquite de meu pai, tomou para si a carga de nos criar, sem qualquer dependência ou ajuda.
Apesar de todas suas atribulações, sempre tinha momentos de carinho e dedicação para com todos e em especial para mim que, quero acreditar sempre fui especial para ela.

Todos ensinamentos que dispus para seguir na vida, de certo modo passaram por ela. Sempre esteve presente em tudo e até hoje, depois de treze anos de sua morte, ainda permanece com sua indelével presença espiritual.

Como a maioria dos seres vivos, passei por aquela época terrível de moleque adolescente, quando achava que tinha as chaves do universo.

Aquele período muito chato que todos nós passamos, na inocência de achar que dominamos tudo e que seremos certamente os vencedores da vida.
Nos consideramos eternos e não pousamos nossa atenção aos detalhes ou riscos inerentes ao viver.

Arrogantes, desfazemos de todos ensinamentos ou cautelas que nos dirigem.
Queremos fazer tudo, normalmente, na ordem contraria e não aceitamos as criticas.

Arrependo-me muito de não ter tido mais sabedoria para entender ou prestar atenção àqueles ditames que vinham dela, o que certamente me teriam feito ser muito melhor.

Cresci e não teve outro jeito!...

Por muito tempo atento nas reformas do mundo, sem ao menos tentar deixar meu quarto mais arrumado.

Sem estar devidamente pronto, acabei me casando contra sua vontade. Ela estava certa!...
O casamento não durou mais que sete anos. Depois deste, ainda vieram mais três, com a conseqüência de nove filhos e, agora 10 netos, sem ter a oportunidade de ter acompanhado-os o bastante, para vê-los se tornarem pessoas.

Assim como fazem alguns de meus filhos hoje, ainda passei muito tempo dando trabalho e preocupações áquela exaurida mulher que me trouxe a vida.

E, não era somente eu que causava este transtorno. As preocupações eram distribuídas para todos os cinco irmãos.

O mais velho que também se divorciou por vezes, a irmã que não se casou e se tornou matrona mau humorada e dependente dela, o outro que também se divorciou e os filhos se tornaram rebeldes em demasia, e comigo que além de me separar varias vezes, fazia filhos em profusão e dividia a vida em baixos e altos momentos, com uma Constancia inimaginável.

No fundo, acredito que a decepcionei muito.

Ela nunca reclamou, mas se ressentia disso. De modo geral, acredito que ela cometeu o erro de ter idealizado vidas diferentes para todos nós.

Mas, o que desgastava eram coisas erradas que fazíamos ou, aquelas que não davam certo, enquanto ela torcia pelo nosso sucesso e, ao mesmo tempo em que, sofria quando não o alcançávamos.

Esse era realmente o motivo de seu cansaço.

Um cansaço de vida, responsável e comprometida com a meta de ver seus frutos se saírem bem.

Um cansaço pela impotencia de atitudes determinantes que fizesse vislumbrar suas marcas de passagem por este mundo, se frutificarem nos moldes e resultados que tanto sonhara.

E, quem sabe, faze-la ver o reconhecimento pelos seus esforços hercúleos para nos encaminhar.

Não aceitava bem o insucesso ou o fracasso. Queria sempre mais e o melhor.

Até o fim esforçou-se por isto, em que acreditava ferreamente.

Seu cansaço refletia a presença cada vez maior, da falta de forças para continuar a lutar.

Da impotência para transformar os fatos ou driblar as armadilhas da vida. Nunca aceitou a derrota. Nunca se conformou com o menos!
Queria sempre o melhor para todos nós.
Mas, sentia que não conseguira alcançar suas idealizações.

Estava cansada, ou melhor: - desmotivada para a luta.

Suas forças já não eram as mesmas. Seu corpo já não obedecia as exigências que fazia.

Seu comando já não era efetivo ou determinante.

Ao contrário, seu cérebro se mantinha claro, límpido e lúcido como sempre fora. Sempre teve coragem para pensar e fazer o que achava certo, mesmo que distante ou ao contrario de determinadas convenções.
Encarava todas as dificuldades, como desafios que a instigavam a vencer.
Foi assim que ela partiu e nos deixou sem sua guarida. Lúcida até a morte.

Creio que ela determinou o dia do descanso.

Sem maiores esclarecimentos, numa manhã em que acordou bem como normalmente acontecia, simplesmente me solicitou que a levasse para o hospital onde seu medico particular trabalhava.

Após um rápido exame, o jovem medico determinou que ela ficasse em observação por vinte quatro horas.

A tarde, voltei para uma visita e, acompanhado da minha ex-esposa, bati um papo com ela a beira de seu leito. Estava somente com aspecto sonolento.

Suas idéias continuavam claras e objetivas. Deu-me vários conselhos e terminou a conversa repentinamente com a determinação que devia ir para casa, pois ela queria descansar.

Peguei em sua mão e beijei-a. Ela sorriu e passou a mão em minha cabeça e disse: - “Vai com Deus!”.

Foram as ultimas palavras que ouvi dela. Duas horas depois, já em casa recebi a noticia que tinha sido internado na UTI.
Foi uma questão de tempo e espera agonizante, até que a noticia de sua partida fosse recebida por todos os irmãos.

Acredito que todos se sentiram mais que órfãos de uma mãe dedicada. Era um vazio que se apresentava!...
Um vácuo que todos nós passaríamos a experimentar desde então.

Uma dia marcante e pontual em todas nossas vidas!.

Terminava um ciclo de união, calor, compreensão e força.
Estávamos agora, única e exclusivamente por nossa conta.

Sentiríamos cada um, a solidão pela falta daquele ente querido e tão necessário. Uma geração que terminava, outra que continua e a próxima, com quem nos afetaremos continuadamente.

O exemplo foi muito claro e, agora começo a sentir o mesmo cansaço de que minha querida mãe sofria. Vejo situações imutáveis que não consigo admitir ou metabolizar.

Os filhos cresceram e já não são os mesmos. Suas vidas sempre interferem na minha. Apesar de conviver bem com a solidão, sinto falta deles na minha companhia, mas me canso com os problemas sem solução satisfatória, daqueles que me pedem socorro.

A idade começa a pesar e não tem como compensar tal involução.

A cabeça continua a pensar como dantes, mas as reações já não são prontas.

Continuo a ter sonhos de realizações que sei nunca vou satisfazer.
O desejo de amar permanece, mas nada comove ou satisfaz minhas velhas expectativas e experiências.
Permaneço só, comigo mesmo!...

Wander Lee, em sua canção, pede a Deus (Ó pai!) que quer viver menino e morrer poeta. Mesmas aspirações deste menino, hoje velho menino. Mas, Não sei reagir!...

A impotência para mudar os fatos, me deixa perplexo e desanimado. Queria ser amado. Queria deixar exemplos universais com minhas atitudes.
Nada acontece!...

Parece que apenas cumpro a pena de cumprir o tempo de vida, e nada mais...

Agora entendo o seu cansaço, mãe!... nada mais surpreende ou alegra de fato. Tudo parece texto decorado e repetido. Filme revisto, inúmeras vezes.

Nem em Deus acredito mais! Tudo parece falso e vazio.

A quântica é a expressão que ainda me traz alguma coisa boa.
Mas, fico pensando em quanto desagradável será, no final, descobrir verdades que confrontam um tanto de regras que segui toda a vida e, que me fizeram perder tanto nesta mesma vida, que agora se esvai.
Em que contribuirá tudo isto?

Só sinto um cansaço tremendo, vendo o mundo girar em cima de um dinheiro que falta e, que os direitos de aproveitar, se reservam a poucos.

Cansaço de permanecer aqui sem o que fazer que modifique, algo ou a mim mesmo.

Agora, eu te entendo mãe!....

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