quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Mineiras -Carlos Drummond de Andrade

O sotaque de Minas .

Minas não é palavra montanhosa. É palavra abissal.

Minas é dentro e fundo.


"O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar.

Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo (das mineiras) ficou de fora?


Porque, Deus, que sotaque!...


Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso?


Assino achando que ela me faz um favor. Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma.

Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.


Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem: "pó parar".

Não dizem: onde que eu estou?, dizem: "ôncôtô".


Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - lingüisticamente falando - apenas de "uais", "trens" e "sôs".

Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é "bom de serviço".

Pouco importa que seja um juiz de direito, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro - metaforicamente falando, claro - ele é bom de serviço.


Faz sentido...Mineiras não usam o famosíssimo "tudo bem".

Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: "cê tá boa?" Para mim, isso é pleonasmo.

Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.Há outras.


Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: - "Mexe com isso não, sô" (leia-se: sai dessa, é fria, etc).

O verbo "mexer", para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.


Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. "Você não dá conta".

"Sôcê" (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz:

- "Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô".


Esse "aqui" é outro que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, 'olá, me escutem, por favor'.


É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.


Mineiras não dizem 'apaixonado por'. Dizem, sabe-se lá por que, "pexonado com".

Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: "Ah, eu pêxonei com ele...". Ou: "sou doida com ele" (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro).


Elas vivem apaixonadas "com" alguma coisa.


Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe.

É um tal de "bonitim", "fechadim", e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: "E aí, vão?". Traduzo: 'E aí, vamos?'.


Não caia na besteira de esperar um 'vamos' completo de uma mineira. Não ouvirá nunca. Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas.

Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer: - Eu preciso de ir...


Onde os mineiros arrumaram esse 'de', aí no meio, é uma boa pergunta. Só não me perguntem. Mas que ele existe, existe!


Asseguro que sim, com escritura lavrada em cartório.

Deixa eu repetir, porque é importante.

Aqui em Minas ninguém precisa ir a lugar nenhum. Entendam... Você não precisa ir, você 'precisa de ir'.

Você não precisa viajar, você 'precisa de viajar'. Se você chamar sua filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará:

"Ah, mãe, eu preciso de ir?"


No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra "um tanto de côsa".


O supermercado não estará lotado, ele terá "um tanto de gente". Se a fila do caixa não anda, é porque está 'agarrando' [aliás,'garrando'] lá na frente. Entendeu? Agarrar é agarrar, ora!


Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará: - Ai, gente, que dó!...


É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras. Não vem caçar confusão pro meu lado.

Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro "caça confusão".


Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele "vive caçando confusão".


Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é muitíssimo bom vai dizer: " Ô, é sem noção".

Entendeu, leitora? É sem noção!


Você não tem, leitora, idéia do "tanto de bom" que é. Só não esqueça, por favor, o "Ô" no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?


Capaz... Se você propõe algo e ela diz: capaz!!! Vocês já ouviram esse "capaz"? É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer "ce acha que eu faço isso!?" com algumas toneladas de ironia...


Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: "Ô dó dôcê". Entendeu? Não? Deixa para lá. É parecido com o "nem...". Já ouviu o "nem..."? Completo ele fica: - "Ah, nem..". O que significa?

Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum.


Você diz "Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?". Resposta: "Nem..." Ainda não entendeu? Uai, nem é nem.Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?


Um mineiro não pergunta: 'você não vai?'. A pergunta, mineiramente falando, seria: "cê não anima de ir?" Tão simples.

O resto do Brasil complica tudo. É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem...Falando em "ei...".

As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o 'ei' no lugar do 'oi'. Você liga, e elas atendem lindamente: "eiiii!!!", com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade...Tem tantos outros...


O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema.


Sou, não nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.

Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão.


Se você, em conversa, falar: Ah, fui lá comprar umas coisas... -"Que's côsa?" - ela retrucará.

O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.


Ouvi de uma menina culta um "pelas metade", no lugar de 'pela metade'. E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará: - Ele pôs a culpa "ni mim".


A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios em Minas...


Ontem , uma senhora docemente me consolou: "prôcupa não, bobo!".

E meus ouvidos, já acostumadosàs ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam.


Talvez se espantassem se ouvissem um: 'não se preocupe', ou algo assim.A fórmula mineira é sintética. E diz tudo. Até o tchau em Minas é personalizado.

Ninguém diz tchau pura e simplesmente.

Aqui se diz: "tchau procê", "tchau procês".

É útil deixar claro o destinatário do tchau."

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